Thiago Brum Teixeira

Alcuíno de Yorque e a Escola Palatina

Alcuíno de Yorque e a Escola Palatina

copista2O Rei Carlos Magno reuniu em sua corte os mais diversos sábios, artistas e intelectuais, que promoveram uma renovação cultural conhecida como Renascimento Carolíngio, responsável por consolidar no mundo ocidental o cristianismo, integrado e apoiado pela filosofia grega. Dentre estes o mais destacado foi Alcuíno de Yorque, reconhecido como um dos homens mais cultos do ocidente cristão do século VIII. Alcuíno, Alcuin ou Albinus Flaccus, como assinava suas obras (todas escritas em latim), nasceu entre os anos 730 e 735 d.C., na Bretanha, hoje território da Inglaterra, foi monge em York, capital do reino da Nortúmbria, onde recebeu instrução do mestre e abade Alberto, que foi discípulo de Egberto e este por sua vez de Beda, o Venerável.

Numa época não existia computador, nem prensa móvel de Gutenberg, nem mesmo máquina de escrever, o papel era artigo de luxo, a tinta tinha que ser meticulosamente preparada e as letras com pena e tinteiro eram caprichosamente desenhadas sob o papel. Escrever um livro era um imenso trabalho e era preciso copiá-lo diversas vezes para preservá-lo ao longo do tempo. Tanto para ter cópias de segurança quanto colocá-lo em papel e encadernações em melhores estados. Tudo isso era necessário para que o conhecimento sobrevivesse às intempéries, à umidade, ao mofo, aos incêndios, saques de inimigos e chegasse até o século XV (700 anos depois de Alcuíno) quando a prensa de tipos móveis foi inventada.

No mundo ocidental eram os monges beneditinos que se dedicavam a preservação e cópia dos textos, principalmente na antiga Inglaterra. Foi neste ambiente que Alcuíno viveu. A regra beneditina valorizava o estudo e a cultura, o cristianismo celta com influências irlandesas era mais flexível, também era comum o ensino do canto gregoriano e a valorização do latim na liturgia e nos costumes. Nestes mosteiros foram construídas as mais importantes bibliotecas, abrigavam os mais notáveis professores e o que podemos chamar de as escolas da época, estavam entre os maiores centros intelectuais da época.

Em 781, Alcuíno foi convidado por Carlos Magno para ser diretor da Escola Palatina (o mesmo que escola do palácio), em Aquisgrán, e chega a corte no ano de 782 com uns 50 anos de idade. A escola palatina funcionava desde os tempos do rei Carlos Martel, avô de Carlos Magno, mas foi com Alcuíno que a conduziu a seu pleno desenvolvimento, quando este serviu de ponte entre o tesouro guardado nos mosteiros beneditinos e o reinado de Carlos Magno.

Como diretor da Escola Palatina implementou o Trivium e o Quadrivium, organizando  a ciência e artes da antiguidade no que veio a ser os alicerces da instrução medieval e da renascença posterior. As disciplinas do Trivium e Quadrivium já existiam desde a antiguidade, presentes principalmente nas obras de Platão, Aristóteles e dos filósofos e matemáticos pitagóricos. Porém foram difundidas na cultura latina por autores como Quintiliano, Agostinho, Boécio, Cassiodoro, Isidoro e Beda. A partir de Alcuíno as Sete Artes Liberais são difundidas no Reino Franco e deste para todo o mundo ocidental.

XJF373203 Alcuin of York, from 'Les Vrais Pourtraits et vies des hommes illustres' by Andre Thevet, 1584 (engraving) by Thevet, Andre (1504-92); Private Collection; (add. info.: Alcuin of York (c.735-804) English advisor to Charlemagne); French, out of copyright

Importante entender que Alcuíno não inovou e sim, selecionou, organizou e transmitiu fielmente o que de melhor encontrou na cultura antiga e “pagã” (não cristã). Alcuíno considerava tudo que era bom e verdadeiro inspirado por Deus, e sendo, as artes liberais inspiradas por Deus elas deviam ser estudadas pelos cristãos, mesmo sendo um conhecimento considerado pagão.

Para Alcuíno, o objetivo maior da educação era o conhecimento e a sabedoria, em que o estudante devia ser conduzido por degraus de ensinamentos, sendo os primeiros sete degraus da sabedoria, as Sete Artes Liberais do Trivium e Quadrivium. Alcuíno compara as setes artes às sete colunas do templo de Salomão e, afirma que a sabedoria é fortalecida pelas Sete Artes Liberais, constituindo estas o currículo da Escola Palatina, onde eram admitidas crianças que já sabiam ler, escrever e realizar as quatro operações. O programa de estudos que durava entre 7 e 9 anos, sendo equivalentes ao atual 6º ano do ensino fundamental ao 3º ano do ensino médio, constituí durante a idade média aos estudos preparatórios para os estudos superiores de Teologia, Direito e Medicina.

O ensino da época se fundamentava na lectio (lição; leitura), na disputatio (diálogo; perguntas e respostas) e no diálogo socrático. A lectio era a exposição didática de um assunto seguido de comentário às opiniões dos autores clássicos, autoridades no assunto. A disputatio era um livre diálogo entre mestre e discípulo composto de perguntas e respostas sobre determinado assunto, ora podendo o mestre fazer as perguntas e o discípulo respondê-las, ora o discípulo fazer as perguntas e o mestre respondê-las. Também podia ter proposições controvertidas como num debate, onde se apresentam argumentos prós e contras, buscando a melhor solução. O diálogo socrático é quando o professor através de perguntas conduzia o aluno à solução de problemas, a definições, ao exame e esclarecimentos.

Para Alcuíno o ensino devia ser divertido e por isso ensinava também por meio de jogos, enigmas, anedotas e adivinhas. Na Escola Palatina cada um tinha um apelido, pelo qual se comunicavam por meio de cartas, Alcuíno era o poeta Horácio e Carlos Magno o Rei Davi. Pelos diálogos e cartas da época é possível perceber o clima descontraído e lúdico da corte, sem em nenhum momento ser desrespeitoso ou grosseiro, pelo contrário, imperava o cavalheirismo, a cortesia e a admiração entre os pares.

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Também era de grande importância educacional o canto coral, a música e a recitação de poesias. A pedagogia de Alcuíno se inicia no som, em seu tratado de gramática ele escreve que é pelo som que se inicia a arte da Gramática, pois a linguagem escrita vem da linguagem falada. A cultura medieval está fundamentada na oralidade, mesmo os poemas, leis e textos escritos, eles eram escritos de forma “oralizada”, ou seja, com objetivo não que fosse lidos, mas que fossem ouvidos. Quando se fala, por exemplo, que as leis da época eram publicadas, quer dizer que eram lidas em praça pública. Da mesma forma os trovadores, bardos e menestréis narravam os acontecimentos heroicos em versos e rimas. A voz era então o fundamento da literatura que se  transformou quando passamos a ler com os olhos, sem soletrar e sem ouvir.

A Escola Palatina era a escola modelo, sua didática e seu currículo eram copiados por todo o reinado. O rei recomendava a construção de escolas em paróquias, catedrais, monastérios e palácios. Geralmente a alfabetização se dava na família ou nas paróquias, para continuidade dos estudos as crianças eram mandadas a mosteiros sob os cuidados dos monges, a escolas catedrais ou mesmo à própria Escola Palatina, que, apesar de, inicialmente servir à instrução dos nobres da corte, também recebia pessoas do povo, selecionadas por interesse, vocação e mérito. Não é incomum encontrar na biografia de cavaleiros, nobres e sacerdotes da época, uma descendência de pessoas das mais simples do povo, como artesãos e até mendigos. Durante o reinado de Carlos Magno as escolas que mais se desenvolveram foram a Escola Palatina e as abrigadas em monastérios. Porém foram a partir do desenvolvimento das escolas catedrais, dirigidas por bispos e que ficavam dentro das cidades, que nasceram as universidades 4 séculos depois.

O rei e o monge valorizam muito a instrução dos sacerdotes e como eles iriam instruir as crianças e jovens, bem como os povos conquistados e incorporados ao reino. Deixaram isso escrito em leis e cartas e trabalharam juntos em prol da unidade cultural, legal e religiosa do reinado e a construção de uma identidade cultural dentre diversos povos diferentes em línguas, história e costumes.

scriptorium-medieval

Alcuíno escreveu uma extensa obra de mais de 40 trabalhos e tratados e 320 cartas da qual chegou até nós pela tradução de Migne pertencente a sua Patrologia Latina. Além das cartas sua obra pode ser dividida em obras didáticas, obras teológicas, obras poéticas. Escreveu tratados didáticos de cada uma das artes liberais, que respondiam as necessidades da Escola Palatina. Também era poeta, e deixou uma coletânea de poesias, sendo sua principal obra uma poesia épica que narra a história do reino da Nortúmbria em 1657 versos.

As obras teológicas são as mais numerosas, escreveu a cerca do ensino e da interpretação de partes da bíblia, escreveu diversas obras de ensinamentos para uma conduta moral e virtuosa, se dedicou a refutação de heresias e a defesa da fidelidade da doutrina cristã, redigiu inúmeras obras litúrgicas que tiveram importante impacto na organização e unificação dos cerimoniais religiosos no reinado e ainda escreveu biografias da vida de “santos” e figuras que deixaram como legado uma conduta moral exemplar.

Em 796 quando em idade mais avançada Alcuíno se retirou da vida pública e Carlos Magno o nomeou abade de San Martin, em Tours, dos mais importantes monastérios do reino Franco, onde Alcuíno se dedicou a impulsionar o trabalho da scriptorium monástica, que é a aquisição, conservação e cópias de manuscritos constituindo uma importante biblioteca em Tours.

Alcuíno instruía os copistas no uso e desenvolvimento da minúscula carolíngia e da iluminura. A minúscula carolíngia era um tipo de letra que se destacava por sua beleza, clareza e facilidade de leitura. O latim era escrito apenas com letras maiúsculas, sem espaçamentos, parágrafos e pontuação, o que dificultava o entendimento e o aprendizado de leitura. A partir da minúscula carolíngia se desenvolveu a letra minúscula, os espaçamentos entre as palavras, parágrafos e pontuação, como a criação do ponto de interrogação, por exemplo. O que facilitou muito o aprendizado da leitura, que até então era para poucos sacerdotes que tinham acesso e que, a partir de então, foi difundido entre os nobres, governantes, líderes religiosos e daqueles que demonstravam interesse e vocação.

douração

A iluminura era a ilustração dos livros com belas imagens em um estilo clássico e a ornamentação das letras, com desenhos, arabescos, miniaturas e estilos de grafismos. A palavra iluminura vem de iluminar por conta das cores vibrantes e luminosas que eram utilizadas, principalmente a decoração com ouro e prata, chamada de douração. Também eram utilizadas predominantemente as cores azul, vermelho e amarelo, por conta da disponibilidade dos pigmentos.

Alcuíno viveu até 19 de março de 804 e foi sepultado em San Martin de Tours como abade. Não ocupou altos cargos na igreja e permaneceu como diácono por toda vida. Porém aconselhou patriarcas, reis, arcebispos, abades e monges durante sua vida, teve muitos discípulos, os quais foram os mais renomados professores e escritores da geração seguinte.  Foi religioso, erudito, poeta, pedagogo, político e conselheiro. Foi amigo e braço direito de Carlos Magno na área cultural, religiosa e educacional. Junto com o rei construíram a identidade do reino franco que veio a ser as bases da própria identidade europeia e ocidental.

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[1] ALCUINO DE  YORK. De Grammatica. in: ALCUIN, Opera Omnia, 2 vols. Paris, 1851. (Migne, Patrologia Latina, C, CI).

[2] FRENK, Margit. Entre la voz y el silencio. Centro de Estudos Cervantinos, 1997. (citação: Paul Valéry. Oeuvres. Pleiade: Paris, 1957.)

[3] OLIVEIRA, Priscila Sibim de. Alcuíno e a educação de governantes: Final do Século VIII e Início do Século IX. 2008. 120 f. Dissertação (Mestrado)-Universidade Estadual de Maringá. Orientadora: (Dra.: Terezinha Oliveira). Maringá, 2008.

[4] RIVAS, R. Alcuíno de York: Obras morales. Introdução, tradução e notas. Espanha:(EUNSA), 2004.

[5] ROSZAK, Piotr. La práctica exegética de Alcuino de York. Facies Domini: Revista alicantina de estudios teológicos, n. 3, p. 503-514, 2011.

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