Thiago Brum Teixeira

Educação Liberal II: O que é Educação Liberal?

Educação Liberal II: O que é Educação Liberal?

Para que haja educação é preciso ter um modelo, um norte, uma referência, ou seja, responder a pergunta: Que ser humano queremos educar? Qual seria o homem ideal, o qual seria a referência para toda educação? Na cultura cristã este Homem Universal está simbolizado em Jesus, o qual encarna as virtudes máximaMosaic of Jesus Christ (13th century), found in the church of Hagia Sophia in Istanbul, Turkey.s que podemos aspirar. Este Homem Universal também pode ser simbolizado, em seus diversos aspectos, pelos heróis, sábios e santos de todos os tempos e culturas, sendo estes, modelos da educação para as virtudes cristãs.

A Educação Liberal é a educação para a excelência humana que remonta as aspirações da alta idade média: o cavalheirismo perfeito, uma educação que tem como modelo heróis, sábios e santos que em sua expressão máxima e universal se condensa na figura do Divino Mestre Jesus. Tal educação busca encontrar a grandiosidade humana, sua transcendência, que é onde o homem se encontra com Deus.

Tanto para Platão quanto para os sábios cristãos, como Agostinho de Hipona e Alcuíno de Yorque, a educação é o sentido mais alto da filosofia, sendo esta a busca da sabedoria, a busca pelo conhecimento das coisas mais altas, mais importantes e universais. Este conhecimento e sabedoria são para eles a virtude e a felicidade, o objetivo da verdadeira filosofia e, portanto da educação [1].

Desde a antiguidade até a idade média o método usado para este tipo de educação é aquele chamada de liberal, mas não no sentido econômico e nem mesmo político, e sim no sentido do homem livre, do qual derivou as chamadas profissões liberais que se opõe às servis. As profissões liberais eram exercidas num ato de liberdade do indivíduo, como sacerdócios e com fim em si mesmas e não apenas com objetivos financeiros, dos quais se caracterizavam as profissões servis. Um advogado ou médico da idade média tinha o dever de atender os necessitados que os procurassem, independentemente de pagamento. Não sendo possível se precificar a saúde e a justiça, as pessoas que eram atendidas pelos médicos e advogados voluntariamente contribuíam com o que podiam. A esta forma de pagamento era dado o nome de honorários, como forma de retribuir a honra destes profissionais.

A Educação Liberal consistia inicialmente no Trivium e Quadrivium, que buscava fornecer os meios de compreensão de si, da sociedade, do mundo e de Deus, bem como os meios de expressão, participação na cultura e o senso de proporções, de apreciação e encantamento das formas universais do mundo. Em síntese, era uma educação para a formação do caráter e do gosto, ética e estética, sendo a fonte desta educação os grandes poetas.

O homem livre se opunha ao homem servil ou ao escravo, essa liberdade consistia em ter algum tempo ocioso onde podia empregá-lo no que quisesse, inclusive na própria educação, onde o mesmo a escolhia por sua própria vontade. Por outro lado era liberal por visar à plenitude das potências do espírito, o conhecimento e a sabedoria e não um fim exterior ao homem.

Atualmente muitos dizem educar para a paz no mundo, para uma sociedade justa, para o desenvolvimento, ou para a cidadania, e tudo isso nada tem de educação liberal, porque faz do homem um meio para outro fim externo a ele, o que é mais uma programação do que uma educação. Assim a educação fica submetida a interesses efêmeros, políticos e econômicos e o professor e estudante sem o saber se tornam servos deste processo [2].

Na Educação Liberal o homem é um fim em si mesmo, é liberal por dar a liberdade a ele, o preparar para ter o poder de fazer suas próprias escolhas, por sua consciência. O conhecimento e a riqueza de experiências resultado da educação liberal é o que podemos chamar de maturidade ou mesmo sabedoria. A sabedoria é o que irá qualificar o homem livre e maduro para que faça as melhores escolhas. Ser livre é ter condições de fazer as melhores escolhas.

Para Olavo de Carvalho a educação liberal é:

“a preparação da alma para a maturidade. O homem maduro é o único que está capacitado a fazer o bem para o meio em que está. Porque o bem também tem que ser conhecido. O discernimento entre o bem e o mal não vem pronto; não adianta ter um formulário, os dez mandamentos ou ter o código civil e penal. Isto não resolve muito. O bem e o mal são uma questão de percepção, que tem que ser afinada para cada nova situação que você vive, porque costumam aparecer mesclados. Jesus disse: na verdade amais o que deveríeis odiar, e odiais o que deveríeis amar. Este é todo o problema da educação, desenvolver no indivíduo, mediante experiências culturais acumuladas, a capacidade de discernimento para que ele saiba em cada momento o que deve amar e o que deve odiar. Ninguém pode dar essa fórmula de antemão, mas a possibilidade do conhecimento existe e está consolidada em milhões de documentos. Uma educação bem conduzida pode levar o indivíduo à maturidade do verdadeiro julgamento autônomo.” [2]

Então, a Educação Liberal é o cultivo do espírito, das potências ou faculdades da alma, visando à sabedoria, para que o homem seja capaz de discernir o bem do mal e fazer as melhores escolhas. Com essa definição fica evidente a profundidade e complexidade da Educação Liberal, por não se tratar só de transmissão de conhecimentos, mas de conduzir os estudantes para elevadas experiências interiores, que enriquecerão seu imaginário e ampliarão o poder de suas capacidades de compreensão.

Alma-e-espirito.1

A sabedoria seria o conjunto de experiências sublimes e universais que permitirá o indivíduo discernir o mal e o bem, o feio e o belo, a mentira e a verdade e a maldade e a bondade. Todas essas coisas vivem misturadas e são comumente confundidas pela mentalidade vulgar. Para ter o poder de reconhecê-las é preciso ampliar a memória, entendida aqui como faculdade do espírito, ampliando o imaginário com experiências diversas, que se manifestaram pelo querer na forma da virtude e de uma pratica fiel do bem. A experiência acumulada na memória que é transformada em sabedoria também será a base para que a luz do entendimento humano brilhe e ilumine todo o ser e seu entorno com o que chamamos de inteligência. Como adquirir tais experiências é o que veremos no próximo texto O Ensino Clássico, o terceiro da série: Educação Liberal III: O Ensino Clássico.

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[1] ALCUÍNO de York. De vera philosophia. In: RIVAS, R. Alcuíno de York: Obras Morales. Espanha: EUNSA, 2004.

[2] CARVALHO, Olavo. Comunicação oral. Rio de Janeiro, 18 de Outubro de 2001. Disponível em: www.olavodecarvalho.org/palestras/2001educacaoliberal.htm.

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2 Comentários

  1. Patrício disse:

    Prezados,
    Com todo respeito, gostaria de sinalizar que, no texto acima, há diversos equívocos, especialmente no que diz respeito ao conceito de Educação. Não podemos ser anacrônicos e pensar num modelo de educação para o século XXI como se estivéssemos na Idade Média europeia. É preciso pensar na diferença entre a educação escolar e a educação familiar (esta última subsidiada pela religião). Há uma vasta bibliografia que trata da educação na contemporaneidade, com reflexões importantes e subsidiadas por pesquisas científicas.
    Além disso, as fontes escritas medievais não são seguras. Recomendaria pesquisar sobre a cultura escrita medieval para perceber que a escrita era um privilégio de poucos e que os textos disponíveis hoje, em sua grande maioria, são cópias de cópias, com sérias questões filológicas. O mesmo ocorre com textos dos filósofos gregos. Os textos escritos não podem ser lidas como se detivessem a verdade absoluta, principalmente textos escritos por aqueles que detinham o poder, como é o caso dos textos medievais. Gostaria de sinalizar também que resgatar a Idade Média europeia é uma atitude eurocêntrica que está sendo questionada há muitos anos no meio acadêmico. Há grande interesse da academia de direcionar o olhar para os povos originários da América e sua sabedoria. Estes povos não tinham uma escrita alfabética(fonética), mas sua sabedoria simples é superior ao pensamento complexo dos filósofos gregos. A sabedoria transmitida oralmente e as tradições dos povos da floresta, por exemplo, tem grande valor. O M. Gabriel nos deixou inúmeros exemplos disso.

    Patrício Nunes Barreiros
    Doutor em Letras e Linguística
    Professor da UEFS/Pesquisador da FAPESB e do CNPq

    • Thiago Brum Teixeira disse:

      Prezado Patrício, grato por seu comentário e por sua sinceridade, pois isso é bem importante para nós, para compreendermos diferentes pensamentos e podermos esclarecer mal entendidos e também aperfeiçoar nosso trabalho. Para seu conhecimento sou psicólogo especializado na área educacional, também em dificuldades de aprendizagem, pós graduado em psicopedagogia, mestre na área educacional, com diversos cursos e treinamentos na área, já fui professor de pós graduação e tenho total conhecimento das pedagogias modernas, inclusive fui adepto de uma diversidade delas. Então, pode ficar tranquilo que tenho consciência do que estou escrevendo e de todo o debate educacional em seus diversos modelos teóricos e metodológicos.
      Primeiro, o senhor assinalou que há “diversos equívocos”, poderia apontar um a um? Destacando do texto as frases equivocadas, se possível.
      Não pretendemos ser anacrônicos e sim resgatar algo que foi perdido com o materialismo cientificista: o sentido original da educação e do ensino, o sentido original das sete artes e principalmente o aspecto transcendental das ciências, o aspecto divino que está presente em todas elas. E este resgate é sim necessário. Tanto é que estamos vendo a proliferação da educação domiciliar nos EUA e Brasil, principalmente pela insatisfação quanto a inversão de valores morais tão disseminada hoje na sociedade. Se pesquisar verá que dentro desse movimento de educação domiciliar o método mais bem quisto entre os pais é a educação liberal também chamada de clássica, que envolve o Trivium e o Quadrivium.
      Quanto as fontes, temos fotos de manuscritos originais que datam ainda da época e entre as cópias, não são uma ou outra, são diversas, e todas convergem, sendo bem complicado então sustentar sua tese. Ainda muitos especialistas em diversas universidades do mundo valorizam e se dedicam a estes estudos e traduções e este desprezo só é visto em alguns meios acadêmicos brasileiros com forte viés ideológico.
      Não lemos os textos como se eles detivessem uma verdade absoluta, nos fundamentamos nos textos e expressamos aqui nossa forma de pensar, o que acreditamos realmente, fruto de exame e experiência, e não apenas repetimos os textos. Há muitos que concordam e sabemos que há os que discordam também, faz parte.
      Quanto aos escritores medievais sabemos que a maioria eram pessoas ligadas à igreja e não necessariamente detinham o poder temporal, muitos destes professores e intelectuais eram inclusive filhos de artesãos e pessoas do povo, e a vida monástica era uma forma de ascensão para eles, onde recebiam instrução e se dedicavam as suas vocações sacerdotais e intelectuais.
      Em nenhum momento desvalorizamos outros povos e todos os autores deste site tem conhecimento e admiração pela sabedoria de diversos povos desde indígenas, pré-colombianos e outros. Entendemos que uma coisa não compete com a outra e pode inclusive ser complementar, pois os tipos de conhecimentos de cada povo são bem diferentes.
      A cultura europeia, por exemplo, é fruto de diversas culturas, inclusive celtas, romanos, gregos, hebreus, árabes, hindus, persas, mesopotâmios, egípcios e há quem diga até atlantes. É uma cultura bem rica e milenar que não podemos desprezar.
      Temos consciência do posicionamento crítico de boa parte da produção acadêmica ocidental ao chamado eurocentrismo e o viés ideológico que o permeia, que vê no homem europeu “branco” como fonte de opressão e da maior parte dos problemas da sociedade. Porém não partimos deste viés que consideramos simplista e maniqueísta. Por isso que nasce a Escola de Artes Liberais, para trazer algo que está no ponto cego deste pensamento e por isso que acreditamos que podemos contribuir tanto, pois não estamos apenas repetindo o que já se diz nas academias, muito pelo contrário: ao resgatarmos algo do passado estamos olhando para o futuro.
      Volto a insistir, destaque uma ou mais frases que não concorde no texto, para nos indicar com mais exatidão, o que realmente o senhor considera equívoco. Comentários como o seu são bem importantes, muitos também podem pensar o mesmo e isso nos dá a oportunidade de dialogar e esclarecer.
      Abraço!