Thiago Brum Teixeira

Educação Liberal III: O Ensino Clássico

Educação Liberal III: O Ensino Clássico

Adquirir experiências e aprender com elas é exatamente do que se trata a Educação Liberal, mas como adquirir tais experiências? Quem possui e aprende com as experiências é o que chamamos de homem maduro, ou algo mais próximo de sábio e do ideal do Homem Universal. A Educação Liberal tem como objetivo possibilitar a ampliação das experiências do ser, experiências estas que sejam as necessárias à sabedoria e a compreensão do espírito humano. Tais experiências podem ser adquiridas naturalmente ao longo da existência ou transmitidas por aqueles que já tiveram esta vivência. Esta transmissão pode ser feita via comunicação verbal ou escrita.

A comunicação oral é dependente e limitada pelo tempo e pelo espaço. Atualmente, podemos vencer o tempo e o espaço com a tecnologia. Podemos nos comunicar à distância via os meios de comunicação atuais, ou mesmo vencer o tempo com a gravação e transmissão de vídeos e sermos lidos ou assistidos daqui a muitos anos. Porém nem sempre estes recursos estiveram disponíveis e muitos sábios do passado não puderam deixar outras formas de registro que não sejam seus textos. A tecnologia então, tradicionalmente usada para superar o tempo e o espaço foi e é a escrita. Através de textos escritos podemos entrar em contato com as maiores mentes independente da época em que elas viveram e de onde viveram.
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Na Educação Liberal se busca ensinar aquilo que as maiores mentes produziram e pensaram. Ensinar o que de mais alto o ser humano cultivou nas artes, ciências e letras. Educação Liberal é a transmissão da cultura e para a produção da cultura. Em primeiro momento, a educação é o cultivo da mente, das faculdades inatas do espírito humano. O cultivo destas capacidades intelectuais é como o cultivo do solo para o plantio.

Hoje, porém, quase não se fala mais de cultura em um sentido universal e singular e sim de diversas culturas, em um conceito relativizado. Ao falarmos cultura, vem a ideia todo o tipo de coisas, pois hoje cultura seria tudo o que o homem faz e cria, qualquer padrão de conduta em qualquer grupo humano sem nenhum critério ou hierarquia de valores que possamos discernir o bom do ruim, o feio do belo e mesmo o falso do verdadeiro. Tudo se tornou relativo e subjetivo, o que vale é agradar as massas já anestesiadas e sem paladar, sedentas por novidades efêmeras que vão e vem, dão espaço a um show business cada vez mais baixo e superficial.

A arte “moderníssima”, por exemplo, nem precisa e muitas vezes nem pretende agradar o público, basta parecer e ter algum especialista ou instituição que a chancele como válida, inovadora e pertinente, para termos instalações “artísticas” sem pé nem cabeça, que não nos dizem nada, quando muito estimulam os cinco sentidos de formas grotescas e superficiais e todos acham que vivenciaram uma obra de arte ou coisa que o valha. Ao final do espetáculo de instantaneidade, tudo é desmontado. Acreditamos que aquilo transcende nosso entendimento por especialistas darem tanto valor a coisa, pois apesar de no fundo todos verem que o rei está nu, fingimos que entendemos com medo de admitir para nós mesmos nossa própria incapacidade de discernimento. Inovador, obscuro, efêmero, inútil.

Screen-Shot-2015-09-17-at-1.16.48-PMTambém é comum se falar em cultura popular, cultura das comunidades ou mesmo cultura de determinados grupos mesmo que de delinquentes e criminosos. Quanto a este multiculturalismo Leo Strauss afirma que de alguma forma a civilização ocidental perdeu seu caminho, pois é como se “alguém dissesse que o cultivo de um jardim pode coexistir no jardim sendo sujado por latas vazias, garrafas de uísque e papeis amassados jogados pelo jardim de forma aleatória.” [1]

Leo Strauss define cultura de massa como uma cultura que pode ser apropriada pela capacidade média das pessoas sem qualquer esforço intelectual ou moral, a um preço muito baixo. Para o autor, para se controlar uma democracia não é preciso objetivar o controle das massas, mas sim o controle da cultura das massas.

Para Leo Strauss “a educação liberal é o antídoto para a cultura de massa, para os efeitos corrosivos da cultura de massa, para sua tendência inerente de produzir nada, a não ser “especialistas sem espírito ou visão e apreciadores do prazer sem coração” […] a educação liberal é a alfabetização de certo tipo: algum tipo de educação em letras e através das letras […], a educação liberal é a libertação da vulgaridade. Os gregos tinham uma bela palavra para “vulgaridade”; eles diziam apeirokalia, falta de experiência em coisas bonitas. a educação liberal nos oferece experiência em coisas bonitas.” [1]

Então, quando falamos em cultura na Educação Liberal, não estamos falando de qualquer cultura e sim do que vale a pena, do que de mais alto e significativo o homem produziu na literatura e nas artes, aquilo que de tão sublime valor, transcende tempo e espaço, o que é a própria definição do que seja uma obra clássica. Por isso que Educação Clássica é um sinônimo de Educação Liberal. Então a resposta para o que ensinar é ensinar os clássicos, também ensinar através dos clássicos e ensinar tudo aquilo que é preciso para a compreensão dos mesmos. Os clássicos desenvolvem o espírito e necessitam do seu desenvolvimento para sua compreensão. Educação Liberal, Para tanto se faz necessário o ensino das Sete  Artes Liberais e de uma determinada cultura geral compartilhada como geografia, ciências e mitologia.

Para Olavo de Carvalho, clássico é “uma obra que tem valor e interesse permanente, que tenha dado alguma contribuição que permanece eficaz ao longo dos tempos; aquela obra que, a despeito do tempo que passou depois que ela foi escrita, ainda tem algo a nos ensinar. Particularmente, e mais precisamente, se designam como clássicas obras que estabeleceram certas noções ou transmitiram certos ensinamentos, que vão formando patamares sucessivos de consciência humana, de tal modo que a discussão de determinados assuntos não tenha mais o direito de descer abaixo daquele patamar. […] A transmissão a um estudante ou a um jovem da consciência desses patamares é que seria precisamente a educação liberal.” [2]

Portanto, são nos clássicos onde estão registrados estes patamares que são elementos estruturais e universais revelados à consciência humana. A Educação Liberal é o acesso e estudo dos clássicos e a vivência na imaginação das experiências existenciais e cognitivas ali registradas. Não se trata de ler os clássicos apenas para adquirir informação, mas sobretudo, para se apropriar das vivências contidas ali. Por tudo isso que a Educação Clássica, além de contribuir no desenvolvimento pleno do ser humano, contribuí para a formação de lideranças mais preparadas.

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[1] Strauss, Leo. Discurso proferido na 10ª cerimônia anual de graduação do programa básico de educação liberal para adultos, em 6 de junho de 1959. Revista Ensino Superior Unicamp. 3ª edição, junho, 2011. Disponível em: www.gr.unicamp.br/ceav/revistaensinosuperior/ed03_junho2011/pdf/12.pdf.

[2] Carvalho, Olavo. Comunicação oral. Rio de Janeiro, 18 de Outubro de 2001. Disponível em: www.olavodecarvalho.org/palestras/2001educacaoliberal.htm.

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4 Comentários

  1. Aline disse:

    Muito bom o texto, parabéns Thiago. Clareou um tanto aqui pra mim

  2. Raimunda disse:

    Muito sugestiva a leitura. Trazendo bases universais que darão uma luz e uma consciência bem clara do que buscamos. Parabéns !