Thiago Brum Teixeira

Trivium: A Arte da Palavra

Trivium: A Arte da Palavra

Trivium é o conjunto das três primeiras Artes Liberais e trata daquilo que na educação clássica é o mais fundamental, o trivial, o que hoje chamamos de mente humana e seu mais sofisticado instrumento: a Linguagem. A mente é o mesmo que os gregos chamavam de psiqué, que deu origem a palavra psicologia; os latinos denominavam por animae, que em geral se traduz por alma ou mesmo por espírito. A linguagem é o que nos distingue de todos os outros animais, que apesar de terem sua própria forma de expressão, não possuem a capacidade de abstração e raciocínio do ser humano. O que nos faz animais racionais é a linguagem e a razão. Sabemos disso pelo modo que pensamos e nos comunicamos, sendo esta maneira única entre todos os animais, só o homem possui estas duas capacidades mencionadas.

Para os gregos antigos “linguagem”, “razão”, “pensamento”, “palavra” e “verbo” tinham um só nome: Logos. Esta palavra era usava para falar do pensamento, da fala, da linguagem ou mesmo da razão em um sentido geral e mais alto. O Trivium é justamente a Ciência do Logos ou a Arte do Logos, ou seja, a ciência da palavra escrita, falada e pensada. Sendo composto por três artes: Gramática, Retórica e Dialética. Cada uma destas três artes estudam um aspecto do Logos, ou seja, da linguagem e, portanto também desenvolvem um aspecto correspondente em nossa mente (espírito).

25062523063_fd8decd7d3_bNas Escrituras, precisamente na abertura do Evangelho de João, é dito: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e Deus era o Verbo”. Em latim temos a palavra Verbum e em Grego a palavra Lógos, observando isto, é reforçada a ideia supracitada que, podemos traduzir o termo tanto como “Verbo”, como “Palavra”, como “Razão” ou mesmo como “Linguagem” [1].

Percebemos que há um sentido bem mais amplo e profundo para o Lógos, que compreende o que já mencionamos e inclui também um conceito transcendental de Razão, que se aproxima do conceito platônico de Ideia.

As três artes triviais tem como matéria-prima a Palavra, em todos os seus sentidos, por isso são artes integradas umas nas outras; a Gramática dá ênfase à palavra escrita, a Retórica à palavra falada e a Dialética à palavra pensada. Todavia, não quer dizer que se limitam a estas dimensões, é uma questão de destaque sobretudo.

5df6fe242c094cc28da1c9253276b45bEm síntese, consonante com os ensinos de Alcuíno de York, o Trivium é um método de compreensão; que se vale da leitura e entendimento dos textos do mundo e do espírito humano, cujo o princípio é ensinar a pensar bem, ler bem, escrever bem e falar bem. É um caminho para o desenvolvimento do ser humano no sentido moral e intelectual e, portanto, ser a base para o desenvolvimento do próprio espírito.

A Gramática do Trivium

A palavra Gramática em sua origem etimológica significa arte das letras, pois grammar vem do grego que significa “letra”. Da mesma forma, temos a palavra Literatura que também é arte das letras, mas se origina do latim, onde litera quer dizer “letra”.

Quando falamos em gramática logo lembramos das regras gramaticais que estudamos na escola: sujeito, predicado, substantivo, adjetivo, preposição, orações coordenadas e subordinadas, ortografia, acentuação e por aí vai. Tudo isso faz parte da gramática, mas não é tudo. No Trivium, gramática envolve principalmente a literatura, ou seja, o que se faz com as letras. A primeira compreende a segunda, com todos os seus gêneros literários, como poesias e narrativa de romance,  e também da crítica literária. A arte das letras envolve a produção e leitura da literatura, e também o estudo e análise do que foi escrito.

Podemos definir gramática como a arte do uso adequado das letras, portando, a arte de falar bem e entender bem o que é dito, também de escrever bem e ler bem o que é escrito. A arte de usar a palavra escrita e falada para ler, escrever, falar e ouvir, compreendendo e sendo compreendido com perfeição, independente de tempo e espaço. A interpretação é a base da gramática, sendo esta a arte da exegese. Em suma, a gramática ensina a ler e compreender o que se lê.

Todo conhecimento se inicia na gramática, ela é o coração do Trivium.  Historicamente é o estudo dos poetas e sua linguagem. A poesia é seu sustentáculo, é o início e o fim da gramática. A educação no Trivium começa na poesia, que é a música da literatura, como Alcuíno de Yorque dizia, o aprendizado de gramática deve começar pelo som [2].

A Retórica do Trivium

O que é Retórica? É a mesma coisa que oratória? De certa forma sim. E porque não usamos a palavra oratória que nos é mais comum? Primeiro, por que a palavra que é usada tradicionalmente é retórica. Segundo, porque oratória dá a entender que se limita a arte de falar, a linguagem falada, e na verdade o discurso retórico também pode se apresentar por escrito. Ou seja, pode ser falado ou escrito. Todavia, desde que entendamos isso, nada nos impede de usarmos a palavra oratória também no lugar de retórica.

Quando falamos a palavra retórica, logo pensamos em persuasão, em convencer o outro e alguns autores até definem retórica dentro de tais limites. Porém, ela é bem mais que isso, é a arte de discursar bem, de falar bem. Faz parte da retórica o conjunto de princípios aplicáveis em um determinado contexto. Estuda o que inspira, o que é útil e aplicável em um contexto especifico.

Se tanto a retórica quanto a gramática são a arte de escrever e falar bem então o que as diferencia? E a gramática também não é a arte de se expressar bem? Então qual a diferença dessas duas disciplinas? Enquanto o bem da gramática há uma ênfase na comunicação dos significados, do conteúdo do que é transmitido, o bem da retórica há uma ênfase em como os significados são transmitidos, desde o estilo, o tom e a moral que influência a qualidade do discurso.

Por exemplo, as figuras de linguagem são um tema da gramática ou da retórica?  Na Gramática, a figura de linguagem é essencial para o entendimento, compreensão, ou seja para a interpretação do significado do texto. Buscando entendê-las para decifrar e descompactar o que está expresso. Já na Retórica, usamos a figura de linguagem não no sentido de expressar algo, mas de amplificar ou intensificar, chamar atenção, para algo que será expresso.

A Dialética do Trivium

A Dialética é por vezes chamada de Lógica. Talvez a segunda palavra, atualmente represente e se aproxima mais do que seja a arte da dialética. É sujeito o termo dialética trazer um entendimento equivocado, uma interpretação que esta ciência seria só algo como os diálogos de Sócrates escritos por Platão. Embora, a Dialética seja a exposição de ideias em suas mais diversas perspectivas, não se limita a isto.

Alcuíno de York define: “Dialética é a disciplina capaz de buscar, definir e discorrer, além de discernir o verdadeiro do falso. A palavra dialética é assim porque nela se examinam as opiniões comumente aceitas.” [3]

Então, a ciência em questão é a arte de expor, de dissertar, de depurar e restringir significados, para que o entendimento entre as pessoas seja dado de forma mais exata e rigorosa. É então a arte da demonstração, de falar ou escrever sobre um assunto de forma rigorosa. Seria a arte de teorizar. Observamos que no Trivium, esta é a arte mais científica.

Tanto a Retórica quanto a Dialética são formas de discurso, de operar a linguagem de diversas formas. Tais diferenças são explicitados por Alcuíno de Yorque: “A dialética está para a retórica assim como, na mão, o punho fechado está para a palma aberta. Aquela conclui os argumentos numa breve oração; esta pelos campos da eloquência discorre com um verbo. Aquela contrai o discurso; esta o distende. A dialética é mais aguda no descobrimento da matéria; a retórica é mais eloquente para falar o que foi descoberto; aquela visa às pessoas estudiosas; essa frequentemente é dirigida ao povo.” [3]

Dialética e Retórica se distinguem por seus objetivos, enquanto a Retórica visa mobilizar a vontade do ouvinte, a Dialética prioriza atender a razão numa demonstração translúcida. Enquanto a Retórica lida com casos específicos e eminentemente práticos, a Dialética com casos gerais e teóricos. Quando perguntamos o que é a Justiça, a boa resposta dependerá da Dialética. Quando perguntamos se fulano foi justo em determinada circunstância, a boa resposta estará no âmbito da Retórica.

Trivium

Considerações finais

As três artes tratadas aqui compõe uma unidade que é o Trivium. Com a Gramática aprendemos a nos comunicarmos e entendermos os textos para compreender bem o espírito humano. Com a retórica aprendemos a nos expressarmos, falarmos e aplicarmos a compreensão do espírito humano aprendida na Gramática. Desenvolvendo em nossa conduta, virtudes e o reconhecimento do valor da moral. Com a dialética aprendemos a definir conceitos, a raciocinar bem, a demonstrar com clareza e rigor nosso raciocínio, buscando a verdade olhando um mesmo assunto por diversas perspectivas.

A Gramática está para o poeta e para o escritor, a Retórica está para o líder e para o político, a Dialética para o estudioso, o filósofo e o cientista. Estudar o Trivium é desenvolver-se na Arte da Palavra, o espelho do espírito humano, pois é pela palavra que compreendemos tudo e a nós mesmos. Por tudo isso que, o Trivium é a porta para o conhecimento, o verdadeiro manual de instruções da mente, são os alicerces para empreendermos a incursão nos vastos campos do saber e do conhecimento.

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[1] Grego: “En archē ēn ho Lógos, kai ho Lógos ēn pros ton Theón, kai Theós ēn ho Lógos.” | Latim: “In principio erat Verbum et Verbum erat apud Deum et Deus erat Verbum.

[2] Alcuíno de York. De Grammatica. in: ALCUIN, Opera Omnia, 2 vols. Paris, 1851. (Migne, Patrologia Latina, C, CI).

[3] Alcuíno de York. De Dialetica.  in: ALCUIN, Opera Omnia, 2 vols. Paris, 1851. (Migne, Patrologia Latina, C, CI).

Outras fontes:

Joseph, Miriam. O Trivium: as artes liberais da lógica, gramática e retórica: entendendo a natureza e a função da linguagem. São Paulo: É realizações, 2008.

Falcon, Rafael. A Educação do Orador: Tradução anotada do livro II do Institutio Oratoria, de Quintiliano. Novas Edições Acadêmicas, 2016.

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3 Comentários

  1. Millena Viana disse:

    Texto claro e esclarecedor. De certo inspira o leitor já encantado pela palavra a continuar conhecendo a maneira desta existir no universo, bem como a usá-la visando a evolução espiritual. Para isso, graças a Deus existe o Trivium!

  2. henrique boechat disse:

    Boa palavra. Exercício de clarear
    as idéias na arte de se construir.

  3. Brunno de Menezes disse:

    Olá, li alguns posts de seu site e fiquei muito interessado em estudar as sete Artes Liberais. Poderiam me indicar livros, vídeos ou qualquer material de estudo? Grato desde já.