Escola de Artes Liberais

Alcuíno de York

Cultura, Ciência e Educação à Luz da Tradição

A Corrupção da Palavra I: A Bestialização do Homem

Qual o maior instrumento humano? A roda? O ábaco ou o astrolábio? O arado? A bússola ou a balança? A pólvora? O relógio? Já sei: o microscópio ou o telescópio! Não… Talvez algo mais moderno, como o computador ou o microchip? Quem sabe o colisor de partículas… De fato, todos esses itens são grandes invenções instrumentais, poderia passar parágrafos e parágrafos listando objetos relevantes para nós. Entretanto, o mais sofisticado instrumento que possuímos não é material, nem foi por nós inventado. É algo que nos diferencia dos demais animais e está profundamente liado a nossa condição, esse instrumento é a Palavra.

Se examinarmos, perceberemos que o vocábulo “palavra” tem uma profunda ligação e permeia outros termos: “linguagem”, “verbo”, “razão” e “pensamento”. Esta profunda ligação acontece pois, conforme já explicado, possuem uma raiz grega comum: Lógos. Na compreensão dos gregos antigos, o Logos é conjunto harmônico de Leis que comandam o universo, formando uma inteligência cósmica. Esta acepção da Palavra como algo Superior, também é presente no cristianismo.

Nos primeiros versículos do Evangelho de João, há uma rememoração ao Princípio de Tudo, da Criação: “No princípio era a Palavra, e a Palavra estava com Deus, e a Palavra era Deus. Ele, a Palavra, estava no princípio com Deus. Todas as coisas foram feitas por Ele, e, sem Ele, nada do que existe teria sido feito. Nele estava a vida e a vida era a luz dos homens. (…) A Palavra é a luz verdadeira que, vinda ao mundo, ilumina a toda a humanidade. Aquele que é a Palavra estava no mundo, e o mundo foi feito por meio Dele”(1).

Estudando estes dois entendimentos (dos gregos e dos cristãos), constatamos que os sábios da antiguidade compreendiam a Palavra, em sua essência, como algo ligado ao Divino e Criador. Reforçado essa concepção, há no Evangelho de Mateus, registros de Jesus explicando que somos responsáveis pelas nossas palavras, pois, por elas ganharemos nossa salvação(2). O próprio Messias é chamado de Verbo Encarnado ou Verbo Divino(3).

Estes exemplos demonstram o quanto os povos antigos estimavam a Palavra. Mas, o que acontece quando os homens se distanciam desta compreensão, da linguagem como algo espiritual, se aproximando de uma visão mais materialista? As palavras convertem-se em meros sons arbitrários que pronunciamos. Seus significados são esvaziados, seu conteúdo fica oco e sua forma deformada. As leis da linguagem são ignoradas, por consequência, o pensamento fica impreciso e sem substrato, pois as palavras podem ser ressignificadas a todo tempo, a comunicação cai na dissonância, na inconstância e na volatilidade.

Se continuar de tal maneira, é fácil visualizar que reviveremos um momento descrito no Velho Testamento, cujo sinônimo é “confusão”: a Torre de Babel, porém numa versão globalizada, uma sociedade onde todos falam e ninguém se compreende.

Vivenciamos uma época com vários malabarismos linguístico e interpretativos, que não receiam em descaracterizar as palavras em prol de relativismos generalizados. Os desdobramentos de tal prática não poderiam ser mais nocivos. Quando se desvirtua o sentido das palavras, corrompe-se a linguagem, que é uma das formas de corrupção mais profundas, uma espécie de negação da Realidade.

Por sua vez, a negação da realidade ou fantasia não dá bons frutos, não contribui para o progresso humano, muito menos colabora com o avanço da humanidade. Comumente aprisiona o fantasioso, fazendo-o “andar em círculos”, retendo-o no mesmo lugar ou então, colocando-o numa espécie de espiral descendente.

O filósofo Mário Ferreira dos Santos, no livro Invasão Vertical dos Bárbaros, considera esta uma das características mais tristes de nossa época, “o esvaziamento das palavras dos seus verdadeiros conteúdos etimológicos e intencionais, para desse modo, ser possível mais eficientemente perturbar as consciências humanas e fazer com que a confusão, no campo das ideias, avassale todos os setores, a fim de favorecer ideias que servem a interesses inconfessáveis“(4). Diante de tudo que refletimos até o momento, nos cabe perguntar e perceber: Se do homem se tira a linguagem, como ele se diferenciará dos demais animais? Não se distinguirá, pois será apenas mais um deles. O que acontece ao ser humano, quando se distância do seu instrumento mais sofisticado? Cai na confusão, barbaridade e bestialidade.

Onde não há termos como acepções unívocas, mas equívocas, não pode haver ciência segura, saber sólido, conhecimento e comunicação entre as mentes, mas, sim, divórcio de ideias, falsas contraposições, polêmicas apenas de palavras, em suma, confusão e recuo de um grau de superioridade intelectual para estágios inferiores e bárbaros, como se verifica hoje entre nós, apesar do imenso progresso técnico adquirido. O homem moderno assemelha-se a um bárbaro tecnizado, a um bárbaro que, subitamente, se viu de posse de uma técnica superior, que ele nem sempre sabe bem como deve empregá-la, e que destino melhor poderá dar-lhe.“(5). Ultrapassando o limiar da barbarização, há o perigo da bestialização, despertando o que há de mais vil, perverso e rasteiro na criatura humana.

Mário Ferreira, no livro Grandezas e Misérias da Logística, constrói uma alegoria esclarecendo que a ruína humana está ligada a destruição e a perversão das Palavras. Tal sustentação é apresentada no prólogo da obra: A Maior Façanha de Satã, a narrativa se ambienta no inferno e tem como personagens Satanás e seus servos diabólicos. O enredo se desdobra em um diálogo entre Satã e um de seus demônios, que buscam afastar o homem de Deus para todo sempre. Ao final chegam a conclusão:

“Enquanto o homem acreditar que a palavra tem um significado, que ela se dirige para alguma coisa de real, ainda afirmará, até quando nega, até quando recusa aceitar qualquer coisa positiva. Só destruiremos no homem os últimos laços que o ligam ao Senhor dos Céus, quando nele destruamos a fé nas palavras, quando o convencermos que elas são apenas vozes que ele articula, que elas não pretendem realmente dizer nada, mas apenas são arbitrárias, apenas indicadoras de uma tentativa de classificar as coisas. Com a palavra começou o homem, e é com a destruição dela que o destruiremos. Só quando destruamos a crença no valor intrínseco das palavras — (disse ele, dominando com o olhar de fogo a todos os demônios presentes) — quando nele destruamos o que há de mais humano, que é a capacidade de dar uma significação a elas, quando afinal, não creiam mais nelas, quando a palavra tenha perdido todo conteúdo, então, sim, irmãos das Trevas, então dominaremos com um grande vazio as suas almas, então os teremos para sempre voltados para o nosso lado, afastados do Senhor dos Céus, e realizado a nossa maior façanha: — tonitruante completou: — teremos destruído a obra do Senhor dos Céus, teremos humilhado Deus para todo o sempre. Seremos, então, os senhores do mundo, e nunca mais perderemos o nosso poder, que será omnipotente. Terem os atingido a omnipotência do mal, e seremos tão grandes como ele. Então, todas as coisas esquecerão para sempre Deus…

Grandiloquente é a alegoria construída por Mário Ferreira. Demonstrando uma grande capacidade deste pensador brasileiro, que um século antes, anteviu as degenerações de nossa época. Das muitas, esta é um das elucidações do filósofo que permanecem atuais e precisam ser relembradas. Segundo ele, deve-se “pugnar para que a terminologia tenha sempre um conteúdo seguro e certo, e ensinar aos que precisam de auxílio, como devem proceder para que as palavras tenham conteúdos seguros e não se afastem do seu verdadeiro sentido, para que a comunicação e o entendimento entre os homens seja o mais eficiente possível.(6)”

Para além de tal empenho, é necessário também relembrar: a Palavra/Linguagem é o que nos conecta ao transcendente, ao imaterial, ao espiritual. Precisamos aprender a fazer bom uso deste instrumento magnífico. Por esse motivo, o estudo do Trivium (a Arte da Palavra), é tão relevante. Pois, ensina a usar a Palavra, na sua dimensão escrita (Gramática), falada (Retórica) e pensada (Dialética), auxiliando a nos aproximarmos e compreendermos o Logos.

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(1) Esta é uma das possíveis traduções, sendo feita do Grego para o Português.

(2)“Eu lhes digo que, os homens haverão de dar conta de toda palavra inútil que tiverem falado. Pois por suas palavras você será absolvido, e por suas palavras será condenado” (Mateus 12:36,37).

(3) “E a Palavra se fez carne e habitou entre nós.” (João 1:14)

(4) SANTOS, Mário Ferreira dos, “Invasão Vertical dos Bárbaros“.

(5) SANTOS, Mário Ferreira dos, “Invasão Vertical dos Bárbaros“.

(6) SANTOS, Mário Ferreira dos, “Invasão Vertical dos Bárbaros“.

LEIA TAMBÉM:

A Corrupção da Palavra II: A Babel Invertida

A Corrupção da Palavra III: A Maior Façanha de Satã

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4 respostas

  1. A corrupção da palavra, como dito no texto, é uma obra de engenharia social, ou seja, alguém (ou alguns) pensou e pretende engenhar de cima para baixo ou é algo natural (na falta de um termo apropriado)?

    Ótimo artigo! No aguardo da sequência!

    1. Excelente pergunta!!
      A linguagem não é estática, portanto se transforma com o decurso do tempo. William Shakespeare e Luís Vaz de Camões criaram muitos neologismos, inovando o inglês e o português, respectivamente. Isto é algo natural.
      Todavia, o que vivenciamos atualmente é diferente. Está bem mais próximo de um projeto de engenharia social. Pois, ao passo que o primeiro processo descrito enriquece a linguagem, o segundo faz justamente o contrário: empobrece. É algo bem próximo da novilíngua apresentada do 1984, de George Orwell.
      Desenvolveremos essa questão do empobrecimento nos próximos textos da série. Fique ligado e acompanhe as publicações!

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